segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Pesquisadores descobrem complexo arqueológico na Amazônia Central


As crônicas de Gaspar de Carvajal, padre espanhol que navegou pelo rio Amazonas no século 16, descrevem uma área repleta de aldeias indígenas. ”Encontramos muita louça dos mais variados feitios: havia talhas e cântaros enormes (…) tudo da melhor louça que já se viu no mundo, porque a ela nem a de Málaga se iguala.” Por muito tempo, essas e outras crônicas da época que relatam a intensa presença humana na região foram tidas como exageradas e fantasiosas. Uma expedição arqueológica à comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha, na Floresta Nacional de Tefé, no Amazonas, encontrou indícios de que o local pode ter sido habitado por muitas pessoas no passado.
A Floresta Nacional de Tefé (Flona) é uma unidade de conservação federal sob gestão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
“Não podemos dizer que é um sítio arqueológico só. O que a gente está vendo é um complexo arqueológico de vários sítios, que podem ter histórias diferentes, mas que estão interligadas”, revela Rafael Lopes, pesquisador associado do Grupo de Pesquisa em Arqueologia e Gestão do Patrimônio Cultural da Amazônia do Instituto Mamirauá, organização social fomentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

A expedição envolveu mais de 40 pessoas durante um mês de trabalho e encontrou uma grande quantidade de vestígios arqueológicos de pelo menos cinco ocupações humanas diferentes no local. Algumas delas, como as cerâmicas da tradição Pocó, podem ser datadas de até 3 mil anos atrás. As diferentes tradições são conjuntos de vestígios em cerâmica, como vasos e urnas funerárias, com padrões como decorações e adornos similares e que estão relacionadas a períodos específicos.
Castanhal
O complexo arqueológico é marcado pela presença de um vasto castanhal que, segundo moradores locais, apesar de se estender por quilômetros, não se prolonga por mais de 500 metros na mata em relação à praia.
O padrão não natural na dispersão dessas castanheiras é mais um indício de que a área abrigou uma grande quantidade de pessoas que, provavelmente, já manejavam essa e outras espécies vegetais há centenas ou milhares de anos. Outra evidência é a presença de terra preta – solo extremamente fértil associado a ocupações humanas de longa duração em um mesmo local.


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